4 de ago de 2011

Clube dos 110: conheça os segredos de quem passa dos 110 anos





"Deus deve ter se esquecido de mim", brincava sempre a francesa Jeanne Calment, que morreu aos 122 anos em 1997. Jeanne foi a pessoa que mais viveu no mundo até hoje e, se Deus deu uma força, agora a ciência está descobrindo motivos menos divinos para longevidades como a dela. Ela faz parte dos supercentenários, o grupo seleto e cada vez mais estudado daqueles que passam de 110 anos.

Os fiscais extraoficiais desse clube são os médicos do Gerontology Research Group, que mantêm uma lista atualizada dos supercentenários vivos. Em março deste ano, eram contabilizados 83 senhoras e 5 senhores - ou 1 a cada 80 milhões de seres humanos (ver quadro na página seguinte). Todos estão no hemisfério norte, mas isso tem mais a ver com a precariedade dos cartórios de 1900 na América do Sul, África e Oceania, o que dificulta a confirmação de idade. A pergunta que fica é: o que os faz especiais? E o que podemos fazer para ao menos nos aproximarmos deles?

Alguma coisa em comum

Segundo um estudo da Boston University School of Medicine, os supercentenários variam muito educação, renda, religião, etnia e até nos padrões de dieta - há desde vegetarianos longevos até anciões do churrasco. Mas eles também têm muita coisa em comum: poucos são obesos, nenhum é ou foi fumante, a maioria lida bem com situações estressantes.

Os bons hábitos são tão determinantes que, quando são adotados por todos, criam-se bolsões de longevidade. Talvez o melhor exemplo seja Loma Linda, na Califórnia, onde um grupo de adventistas vegetarianos não fuma, faz exercícios regularmente, dedica muito tempo à família - basicamente a receita da longevidade. Como consequência, eles têm uma expectativa de vida de 85 anos, 10 anos a mais que a média americana.

Além disso, o que é notável em se tratando de 11 décadas queimando neurônios, só 20% tiveram perdas neurológicas - 80% estão totalmente lúcidos.

Baseados em testes de personalidade, os médicos de Boston apontam ainda que poucos são neuróticos e a maior parte é extrovertida. Taí a Jeanne Calment para provar. Eu seu 110º aniversário, a francesa declarou: "Eu só tenho uma ruga, e estou sentada em cima dela".

Sim, senhoras

Brincadeiras à parte, Jeanne tinha outro fator em seu favor: era mulher. Segundo o geriatra Eduardo Ferrioli, da Faculdade de Medicina da USP, as fêmeas humanas "vivem mais desde o útero", já que entre os nascidos vivos a maioria é mulher. Além disso, a proteção hormonal até a menopausa dificulta as doenças cardiovasculares em mulheres.

Outro fator que pode explicar essa sobrevida maior das mulheres é a época em que essas supercentenárias viveram. Elas são de uma geração em que a mulher quase não saía de casa e não era exposta à violência urbana e aos riscos da rua. Segundo Anderson Della Torre, o geriatra da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, outra possível causa para termos uma longevidade maior em mulheres é que elas fazem um maior acompanhamento periódico de saúde, enquanto os homens acabam abusando mais do álcool, tabaco e estresse e quase nunca vão ao médico fazer exames de prevenção.

Para Della Torre, isso deve mudar no médio e longo prazo, uma vez que hoje as mulheres estão tão expostas aos inimigos da longevidade quanto os homens.

Fórmula do envelhecimento

Sim, longevidade também vem de berço: mais da metade dos centenários têm parentes que atingiram os 100 anos ou mais. Mas bons hábitos como nutrição de qualidade, atividade física regular e uma boa quantidade de sono podem até mudar a estrutura genética. Sério: a forma como se vive pode atrapalhar ou ajudar na replicação de células e até encurtar ou alongar telômeros - estruturas que formam as extremidades dos cromossomos e são essenciais na replicação de células.

Estudos em camundongos mostraram que uma dieta equilibrada, com redução de calorias em 30%, faz eles viverem o dobro do tempo e os torna quase imunes a diabetes e câncer. A máxima "quanto mais velho você está, mais doente você é" deveria ser adaptada para "quanto mais velho você está, mais saudável você foi".

Se é para apontar uma regra para se viver mais, os geriatras fazem coro: o importante mesmo é se manter ativo física e mentalmente. Os mais velhos devem evitar o sedentarismo e, mesmo que a pessoa pare de trabalhar, nunca pode deixar de exercitar o raciocínio, a mente, seja participando de projetos, seja lendo livros ou fazendo quebra-cabeças. Até o acompanhamento psicológico é importante para evitar doenças como depressão, que também pode ser uma porta de entrada para outras patologias.

No best-seller Living to 100 ("Vivendo até os 100"), o médico americano Thomas Perls chama atenção para outros fatores que podem acrescentar anos de vida. Fio dental, inclusive. Perls diz: "Há relação direta entre inflamação da gengiva e doença do coração: passe fio dental todos os dias e adicione um ano à sua vida".

Mesmo com todo o fio dental do mundo, o fim sempre chega. Mas há boas notícias: segundo o Gerontology Research Group, a superlongevidade vai crescer. Esses cientistas acreditam que somos testemunhas de uma expansão do limite biológico, uma vez que a qualidade de vida melhorou muito. Bom, então é isso: nos vemos no nosso 110º aniversário.

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Não é o dinheiro, estúpido


Não paute sua vida pelo dinheiro: seja fascinado pelo realizar e o dinheiro virá como consequência

SOU, COM FREQUÊNCIA, chamado a fazer palestras para turmas de formandos. Orgulha-me poder orientar jovens em seus primeiros passos profissionais.

Há uma palestra que alguns podem conhecer já pela web, mas queria compartilhar seus fundamentos com os leitores da coluna.

Sempre digo que a atitude quente é muito mais importante do que o conhecimento frio.

Acumular conhecimento é nobre e necessário, mas sem atitude, sem personalidade, você, no fundo, não será muito diferente daquele personagem de Charles Chaplin apertando parafusos numa planta industrial do século passado.

É preciso, antes de tudo, se envolver com o trabalho, amar o seu ofício com todo o coração.

Não paute sua vida nem sua carreira pelo dinheiro. Seja fascinado pelo realizar, que o dinheiro virá como consequência.

Quem pensa só em dinheiro não consegue sequer ser um grande bandido ou um grande canalha. Napoleão não conquistou a Europa por dinheiro. Michelangelo não passou 16 anos pintando a Capela Sistina por dinheiro.

E, geralmente, os que só pensam nele não o ganham. Porque são incapazes de sonhar. Tudo o que fica pronto na vida foi antes construído na alma.

A propósito, lembro-me de um diálogo extraordinário entre uma freira americana cuidando de leprosos no Pacífico e um milionário texano. O milionário, vendo-a tratar dos leprosos, diz: "Freira, eu não faria isso por dinheiro nenhum no mundo". E ela responde: "Eu também não, meu filho".

Não estou fazendo com isso nenhuma apologia à pobreza, muito pelo contrário. Digo apenas que pensar e realizar têm trazido mais fortuna do que pensar em fortuna.

Meu segundo conselho: pense no seu país. Porque, principalmente hoje, pensar em todos é a melhor maneira de pensar em si.

Era muito difícil viver numa nação onde a maioria morria de fome e a minoria morria de medo. Hoje o país oferece oportunidades a todos.

A estabilidade econômica e a democracia mostraram o óbvio: que ricos e pobres vão enriquecer juntos no Brasil. A inclusão é nosso único caminho. Meu terceiro conselho vem diretamente da Bíblia: seja quente ou seja frio, não seja morno que eu vomito. É exatamente isso que está escrito na carta de Laodiceia.

É preferível o erro à omissão; o fracasso ao tédio; o escândalo ao vazio. Porque já li livros e vi filmes sobre a tristeza, a tragédia, o fracasso. Mas ninguém narra o ócio, a acomodação, o não fazer, o remanso (ou narra e fica muito chato!).

Colabore com seu biógrafo: faça, erre, tente, falhe, lute. Mas, por favor, não jogue fora, se acomodando, a extraordinária oportunidade de ter vivido.

Tenho consciência de que cada homem foi feito para fazer história.

Que todo homem é um milagre e traz em si uma evolução. Que é mais do que sexo ou dinheiro.

Você foi criado para construir pirâmides e versos, descobrir continentes e mundos, caminhando sempre com um saco de interrogações numa mão e uma caixa de possibilidades na outra. Não dê férias para os seus pés.

Não se sente e passe a ser analista da vida alheia, espectador do mundo, comentarista do cotidiano, dessas pessoas que vivem a dizer: "Eu não disse? Eu sabia!".

Toda família tem um tio batalhador e bem de vida que, durante o almoço de domingo, tem de aguentar aquele outro tio muito inteligente e fracassado contar tudo o que faria, apenas se fizesse alguma coisa.

Chega dos poetas não publicados, de empresários de mesa de bar, de pessoas que fazem coisas fantásticas toda sexta à noite, todo sábado e todo domingo, mas que na segunda-feira não sabem concretizar o que falam. Porque não sabem ansiar, não sabem perder a pose, não sabem recomeçar. Porque não sabem trabalhar.

Só o trabalho lhe leva a conhecer pessoas e mundos que os acomodados não conhecerão. E isso se chama "sucesso".

Seja sempre você mesmo, mas não seja sempre o mesmo.

Tão importante quanto inventar-se é reinventar-se. Eu era gordo, fiquei magro. Era criativo, virei empreendedor. Era baiano, virei também carioca, paulista, nova-iorquino, global.

Mas o mundo só vai querer ouvir você se você falar alguma coisa para ele. O que você tem a dizer para o mundo?


NIZAN GUANAES, publicitário e presidente do Grupo ABC

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