11 de mai de 2011

Lazer pós-moderno

No mundo virtual a pessoa

não se define pelo que ela é,
mas pelo que deseja ser

A REALIDADE costumava ser sólida e confiável. Era pão, pão, queijo, queijo. Hoje, está travestida de imagens e de conceitos fabricados. Já não temos acesso a sua nudez.

Por isso, não acreditamos mais no que vemos, e dá trabalho discriminar o que é do que parece.

Mas também dá para se divertir com isso. Nas formas pós-modernas de lazer -reality show e jogo virtual- , o novo brinquedo é a própria realidade, nua ou travestida.

No show, o barato é ficar caçando indícios das emoções reais dos jogadores em sua comunicação corporal.

No Second Life, ao contrário, o jogador se esbalda numa realidade fabricada. A começar pela versão digital do ser humano, o avatar. Eles interagem on-line, têm um trabalho criativo, ganham dinheiro de verdade, gastam.

Conhecem pessoas, cantam e se casam. A graça do mundo virtual é que lá tudo é perfeito.

Um amigo conheceu no jogo uma linda avatar que gerencia casas de show. Descobriu, depois, ser uma chinesa que sofre de esclerose múltipla. No jogo, ela conhece artistas e conversa com gente que curte música. Antes, ficava em casa vendo TV sozinha.

Outro avatar se apresenta com uma biografia ilustre.

Construiu uma casa faraônica. Na vida real ele seria considerado estranho. Os avatares frequentam sua mansão numa boa, não contestam seu modo de vida.

Há insatisfeitos com o casamento que não arriscam um caso, mas querem viver uma aventura. E há também lindas histórias de amor.

A mais incrível é a do casamento -de véu e grinalda- entre um americano e uma australiana. Os dois nunca se encontraram na vida real, nem pretendem. No jogo, ambos são lindos e jovens, conversam todos os dias, vão a shows, viajam, fazem sexo. Ele disse que não pode imaginar a vida sem sua mulher.

Nossa identidade cotidiana é limitada pela realidade. Somos homem ou mulher, jovem ou velho, burocrata ou artista. No mundo virtual, a pessoa não se define pelo que é, mas pelo que quer ser. É a realidade psíquica que manda. E nessa, cada um é plural.

No jogo, nossos vários eus ganham voz e cidadania. O limite é o desejo de cada um.

Experiências virtuais são reais, mas não são palpáveis. Como não há matéria, ninguém perde para seu corpo. Se, no reality show, o corpo dá bandeira, o do avatar não trai o que o jogador está sentindo. É uma vida sem os aborrecimentos do corpo, mas também sem as alegrias da carne. A relação custo-benefício pode compensar. Ou não.


MARION MINERBO , psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de "Neurose e Não-Neurose" (Casa do Psicólogo)

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Não é o dinheiro, estúpido


Não paute sua vida pelo dinheiro: seja fascinado pelo realizar e o dinheiro virá como consequência

SOU, COM FREQUÊNCIA, chamado a fazer palestras para turmas de formandos. Orgulha-me poder orientar jovens em seus primeiros passos profissionais.

Há uma palestra que alguns podem conhecer já pela web, mas queria compartilhar seus fundamentos com os leitores da coluna.

Sempre digo que a atitude quente é muito mais importante do que o conhecimento frio.

Acumular conhecimento é nobre e necessário, mas sem atitude, sem personalidade, você, no fundo, não será muito diferente daquele personagem de Charles Chaplin apertando parafusos numa planta industrial do século passado.

É preciso, antes de tudo, se envolver com o trabalho, amar o seu ofício com todo o coração.

Não paute sua vida nem sua carreira pelo dinheiro. Seja fascinado pelo realizar, que o dinheiro virá como consequência.

Quem pensa só em dinheiro não consegue sequer ser um grande bandido ou um grande canalha. Napoleão não conquistou a Europa por dinheiro. Michelangelo não passou 16 anos pintando a Capela Sistina por dinheiro.

E, geralmente, os que só pensam nele não o ganham. Porque são incapazes de sonhar. Tudo o que fica pronto na vida foi antes construído na alma.

A propósito, lembro-me de um diálogo extraordinário entre uma freira americana cuidando de leprosos no Pacífico e um milionário texano. O milionário, vendo-a tratar dos leprosos, diz: "Freira, eu não faria isso por dinheiro nenhum no mundo". E ela responde: "Eu também não, meu filho".

Não estou fazendo com isso nenhuma apologia à pobreza, muito pelo contrário. Digo apenas que pensar e realizar têm trazido mais fortuna do que pensar em fortuna.

Meu segundo conselho: pense no seu país. Porque, principalmente hoje, pensar em todos é a melhor maneira de pensar em si.

Era muito difícil viver numa nação onde a maioria morria de fome e a minoria morria de medo. Hoje o país oferece oportunidades a todos.

A estabilidade econômica e a democracia mostraram o óbvio: que ricos e pobres vão enriquecer juntos no Brasil. A inclusão é nosso único caminho. Meu terceiro conselho vem diretamente da Bíblia: seja quente ou seja frio, não seja morno que eu vomito. É exatamente isso que está escrito na carta de Laodiceia.

É preferível o erro à omissão; o fracasso ao tédio; o escândalo ao vazio. Porque já li livros e vi filmes sobre a tristeza, a tragédia, o fracasso. Mas ninguém narra o ócio, a acomodação, o não fazer, o remanso (ou narra e fica muito chato!).

Colabore com seu biógrafo: faça, erre, tente, falhe, lute. Mas, por favor, não jogue fora, se acomodando, a extraordinária oportunidade de ter vivido.

Tenho consciência de que cada homem foi feito para fazer história.

Que todo homem é um milagre e traz em si uma evolução. Que é mais do que sexo ou dinheiro.

Você foi criado para construir pirâmides e versos, descobrir continentes e mundos, caminhando sempre com um saco de interrogações numa mão e uma caixa de possibilidades na outra. Não dê férias para os seus pés.

Não se sente e passe a ser analista da vida alheia, espectador do mundo, comentarista do cotidiano, dessas pessoas que vivem a dizer: "Eu não disse? Eu sabia!".

Toda família tem um tio batalhador e bem de vida que, durante o almoço de domingo, tem de aguentar aquele outro tio muito inteligente e fracassado contar tudo o que faria, apenas se fizesse alguma coisa.

Chega dos poetas não publicados, de empresários de mesa de bar, de pessoas que fazem coisas fantásticas toda sexta à noite, todo sábado e todo domingo, mas que na segunda-feira não sabem concretizar o que falam. Porque não sabem ansiar, não sabem perder a pose, não sabem recomeçar. Porque não sabem trabalhar.

Só o trabalho lhe leva a conhecer pessoas e mundos que os acomodados não conhecerão. E isso se chama "sucesso".

Seja sempre você mesmo, mas não seja sempre o mesmo.

Tão importante quanto inventar-se é reinventar-se. Eu era gordo, fiquei magro. Era criativo, virei empreendedor. Era baiano, virei também carioca, paulista, nova-iorquino, global.

Mas o mundo só vai querer ouvir você se você falar alguma coisa para ele. O que você tem a dizer para o mundo?


NIZAN GUANAES, publicitário e presidente do Grupo ABC

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